sábado, 31 de março de 2007

Piada sem graça




Amanhã, 1 de abril, seria a data correta para alguns espíritos de porco comemorarem os 43 anos do golpe militar. Essa coincidência sincrônica foi passada na história oficial para 31 de março por motivos óbvios de "força maior". Os filhos e netos dos vendidos e até uns "democratas" que participaram ativamente dessa patuscada abominável ainda estão aí, clamando pelo Estado menor e pela livre iniciativa, ao mesmo tempo em que mamam no BNDES, no Banco do Brasil e nas verbas publicitárias governamentais, chupinhando a Nação. Por gerações e gerações as cartas sempre estiveram marcadas. O jogo estava ganho na saída, sempre favorável para poucos. Sempre os mesmos. Agora bota a mão na consciência, dá uma caminhada pelas ruas, informe-se e diga que nada mudou.
Hoje lembro Edgar Alan Poe e digo junto com o corvo: Nunca mais!

Lula lá




Dizia Jimi Hendrix na sua groovada e deliciosa música Power of Soul com a Band of Gypsys: " With the power of soul, anything is possible!"*. E para embalar o sabadão de sol, trago esta história contada por Ricardo Amaral, interino de Franklin Martins no site que o atual Secretário de Comunicação do governo Lula tem no IG. Ricardo a ouviu do governador petista Marcelo Déda, membro da comitiva brasileira na Assembéia Geral da ONU em setembro de 2003, quando ainda era prefeito de Aracaju.


Fim de jornada, Lula chama o prefeito Déda à suíte do hotel, para curtir a repercussão do seu primeiro discurso na ONU. O presidente está à vontade, de calção preto e camisa do Corínthians, fumando sua cigarrilha holandesa.

- Ô, Dedinha, sabe o que eu estou imaginando agora? O pessoal no bar lá em São Bernardo, vendo pela televisão o Lulinha aqui falando na ONU. Sabe o que pessoal deve estar pensando lá em São Bernardo? Você imagina, Dedinha?

O prefeito de Aracaju faz um conveniente silêncio, antes de Lula concluir:

- Eles estão pensando: nada é impossível...

O chanceler Celso Amorim interrompe o devaneio para lembrar que Bush está oferecendo um jantar aos presidentes estrangeiros no Waldorf Astoria.

- Ô, Celso, quantos presidentes vai ter lá?

O chanceler calcula que, por baixo, uns cem chefes de Estado devem comparecer à recepção.

- Isso tudo? Então o Bush nem vai reparar na minha ausência, não é, Celso?

E de volta ao devaneio:

- Nada é impossível nesse mundo, Dedinha. Nada. É nisso que o pessoal deve estar pensando lá em São Bernardo.



Para alguns pobres de espírito é munição. Que meçam e julguem os outros como lhes agradar e com seu metro falho. Ó seres imaculados...hahaha. Um bom fim de semana pra todos.

* " Com a força da alma tudo é possível".

sexta-feira, 30 de março de 2007

Os Dinossauros também amam





Do MUJA - Museo del Jurásico de Asturias da Espanha. Via Sexoteric Blog.

Quarta Guerra Mundial



Essa li no blog Diário Gauche.


O Subcomandante Insurgente Marcos, reconhecido como porta-voz do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), em conferência organizada pelo Centro de Análise Políticos e Pesquisas Sociais (CAPISE) que reuniu lideranças latino-americanas da Via Campesina, afirmou que entramos na era da IV Guerra Mundial, na qual o "inimigo" é o planeta e não apenas os seus habitantes, mas também tudo que está nele: a natureza.

A conferência "A guerra de conquista sobre o campo mexicano" foi publicado na íntegra pelo diário mexicano La Jornada, do último dia 26/3. Abaixo, trechos da fala de Marcos.



Sobre a Guerra Neoliberal

A etapa atual do capitalismo é, no sentido estrito, uma nova guerra de conquista. A IV guerra mundial, uma guerra em todas as partes, o momento todo, de todas as formas. A mais mundial das guerras. O mercado converte em mercadorias bens que antes eram ignorados ou permaneciam fora do circuito mercantil.

Assim, a água, o ar, a terra, os bens que estão no subsolo, os códigos genéticos e todas essas "coisas", que antes eram desconhecidas ou careciam de valor de uso e troca, converteram-se durante os vertiginosos últimos anos em uma mercadoria.

A mercadoria que permanece, apesar das mudanças e dos avanços tecnológicos e informacional é a força de trabalho, as trabalhadoras e os trabalhadores do campo e da cidade. O sonho capitalista de um mundo sem trabalhadores, apenas com robôs e máquinas que não exijam os seus direitos, nem se sindicalizem e façam greves é isso: um sonho. Outro mundo apenas será possível sobre o cadáver do capitalismo, como sistema dominante.

A globalização do capital destruiu as fronteiras nacionais e reacomodou o mundo. A lógica do mercado é agora o que determina as relações internacionais e as relações dentro dos moribundos Estados Nacionais.

A lógica do mercado esconde, por detrás de sua aparente inocência, a lógica da exploração, da espoliação, da repressão e do desprezo, ou seja, a lógica do capitalismo. A riqueza capitalista tem como origem o roubo e a exploração.

A revolução tecnológica e informacional trouxe consigo a possibilidade da simultaneidade e a onipresença do capital, fundamentalmente do seu setor mais emblemático: o capital financeiro.

Na Globalização Econômica Capitalista, ou seja, na IV Guerra Mundial, o "inimigo" é o planeta, não apenas os seus habitantes majoritários, mas também tudo que está nele: a natureza.

O Imperialismo mudou as suas formas de guerrear, mas o amo segue sendo o capital e seu imperador vitalício, o capital financeiro.


Concordo mas acrescento que o "inimigo" e o "Imperialismo" também estão dentro de nós. Auto-conhecimento é a chave da vitória nessa guerra.

Triste notícia

Quem encontrei também ontem nos shows da escadaria do Rosário, foi o Chico. O cara é um grande tatuador e organizamos muitas festas quando fui gerente de um bar. O Chico tá morando em Londres e divide um apartamento com o Lucão, um amigo de grande coração, excelente editor de vídeo e neto do poeta Manoel de Barros. A notícia triste que o Chico me deu foi que o Lucão estava voltando pro Brasil naquele momento por que o pai dele acabara de falecer num acidente aéreo. Ficamos todos aqui muito chocados e tristes. Desejo muita paz pro Lucão e sua família neste momento de dor.

O primeiro degrau




Bem ao sabor dos tempos segue uma clássica HQ dos Fabulosos Freak Brothers. É só clicar na imagem para ampliar.

Alea Jacta Est




Tenho grandes mestres, e eles me ensinaram que a História é feita pelo indivíduo. Podemos interferir e mudar. Pra mim não é uma questão de fé, e sim de verificação atráves da tentativa e erro. Sou um empírico. Começo o post assim, inspirado por um e-mail de um colega músico que pergunta se eu realmente acredito na atual efervescência da música catarinense e se não acho que isso é só "um sonrisal num copo de Coca". Reafirmo: " A música catarinense vive um momento efervescente". E o movimento é sólido. Ontem tive mais uma prova disso. As bandas Andrey e a Baba do Dragão de Komodo, Samambaia Sound Club e Siri Goiá reuniram cerca de 300 pessoas, segundo o Data Esquerda Festiva, fora as que circularam numa apresentação na escadaria do Rosário, ponto tradicional no Centro da Capital Catarinense. O evento foi organizado e bancado pelos músicos mas shows gratuitos ao ar livre deveriam entrar no calendário cultural da cidade e ter apoio oficial e da iniciativa privada.

As pessoas estão ao pouco conhecendo o som que está sendo feito pelos músicos locais, algo semelhante ao que aconteceu nos anos 90, depois que surgiu a banda Dazaranha. Ontem na escadaria do Rosário estavam estudantes, pessoas que saíram do trabalho, crianças, idosos, familiares dos músicos, músicos, fãs, escritores, cineastas, e muito gambá caseiro* voltando a sair da toca. Revi meu velho camarada Zezão, ex-baterista da Motherfucker, que há anos não toca e me disse que amanhã está reunindo-se com o Alexandre Iron para fazer um som! A cena está nascendo e os bares, que como dizia o nome daquele disco do Frank Zappa só estão nessa only for the money, que abram os olhos.



* indivíduo que só faz festas no seu lar ou de outrem. Ou indivíduo que compra sua birita no atacado e bebe em casa, sozinho ou com outros gambás.

quarta-feira, 28 de março de 2007

No Brasil não existe racismo...


...já diria Ali Kamel. Esse quadrinho do Reinaldo, aquele que hoje participa do chatérrimo Casseta & Planeta, foi publicado no suplemento Jam, que fazia parte da fantástica Chiclete com Banana. Muitos anos antes daquela banda "emporcalhar" o nome como diria o Angeli, o cartunista lançou uma revista que reunia gente como ele, Laerte, Glauco, Fábio Zimbres e outros ótimos artistas. Chiclete com Banana foi um sucesso editorial embalado pelo Plano Cruzado do Sarney. Com um dinheirinho sobrando no bolso a classe média foi às bancas. As tiragens ultrapassavam os 100 mil exemplares. Imagine, isso com um conteúdo pra lá de anárquico. Foi lá que ouvi falar pela primeira vez nos beatniks. Eram quadrinhos da maior qualidade, sexo, drogas e rock'n'roll, política, humor ácido e tudo mais que a Esquerda Festiva gosta. Lembrando que clicando na imagem ela é ampliada



terça-feira, 27 de março de 2007

A Taça é nossa!




Não sou o primeiro a vir com as últimas mas não posso deixar de registrar que Samambaia Sound Club venceu o concurso Paredão Telecom de bandas de rock, no último fim de semana em Novo Hamburgo, Rio Grande do Sul. É a força da música catarinense que vive um momento efervescente. Parabéns Samambaios!

Meritocracia

Saiu hoje na coluna da Juliana Wosgraus no DC:

Convite

Márcia Mell recebeu convite para fazer uma participação especial como atriz na peça E Agora o que eu faço com o pernil?, comédia que depois deste final de semana em Floripa, estará em cartaz em Joinville e Blumenau. Mas nestas cidades ainda sem data definida.

De qualquer maneira o convite, feito pelos atores Rosamaria Murtinho e Mauro Mendonça, devido à sua participação no musical Cleópatra, já está aceito.


Pra quem não sabe a fofucha é filha do governador Luiz Henrique da Silveira e tem tanto talento quanto um pé de alface. Na posse de papai errou a letra e desafinou dolorosamente ao cantar o Hino Nacional.

A Rosamaria Murtinho e o Mauro Mendonça devem estar querendo é ganhar uns 500 mil reais da Fundação Catarinense de Cultura(?) assim como a Vera Fischer ganhou no ano passado para uma turnê fracassada.

domingo, 25 de março de 2007

No meu, no seu, no nosso



Reportagem de Carta Capital desta semana mostra que o Banco Central faz reuniões secretas com executivos de grandes bancos. Como informa a revista ," as ligações estreitas entre o BC e o mercado, no Brasil, não têm paralelo no mundo. Nos Estados Unidos, reino do capitalismo financeiro, o presidente e os governadores do Federal Reserve (Fed) estão submetidos a duras regras. Além de um código de conduta rigoroso, explicitado nos sites de todas as regionais do Fed, duas vezes por ano, o presidente da autoridade monetária (Ben Bernanke) é obrigado por lei a dirigir-se ao Congresso para explicar os objetivos e os resultados da política monetária, com ênfase nos efeitos sobre o crescimento e o desemprego."


Leia mais aqui.

Confronto

Briga das boas rolando. Luiz Carlos Azenha, repórter da TV Globo e blogueiro no G1, versus Reinaldo Azevedo, boca-de-aluguel daquela revistinha que editorializa até resenha de música clássica. O Azenha é um jornalista de fina estirpe, um cara que vai pra rua, investiga, é atuante e além de ter um blog bom paca, criou o Sivuca, um portal que reúne outros bons blogs. Já o Reinaldo Azevedo é aquele que afundou a revista Primeira Leitura, que era digamos o Pravda do PSDB paulista. Um cara que vive no ar-condicionado, atrás de vidros fumê, dentro das cercas de condomínio.Ah e ele tem um blog no site daquele almanaque dos quatrocentões, de onde dispara seus ataques verbais.

Como se tratam de dois caras muito inteligentes, é certo que nenhum deles ganhará a discussão, mas os métodos, argumentos e principalmente motivos fazem toda a diferença né não?

Daza




A mais famosa banda de rock de Santa Catarina, a Dazaranha, vai realizar, nos dias 4 e 5 de abril, os shows de lançamento de seu álbum Paralisa no Teatro do CIC. Quem informou a Esquerda Festiva foi o vocalista e compositor Gazu, que encontrei na quinta à noite no estúdio Lemory. Para a produção do álbum da banda foi escolhido dessa vez Ricardo Vidal, que trabalha com o Rappa e tem um estúdio em Balneário Camboriú. A presença do produtor se nota em vários detalhes eletrônicos e na enxutez dos arranjos. Estou ouvindo e curtindo o disco que tem muitas músicas como já é de praxe na banda. Dessa vez são 16 faixas das quais destaco Jeffrey's Bay, música antiga que a banda toca desde os primórdios de sua história, O Samba e o funk Durma Bem, cantado pelo guitarrista Chico e que tem a participação da filhinha dele na introdução. Estaremos lá.

Dá-lhe banho de sal grosso



Floripa zicou o Gilberto Gil com a Imigração Norte-Americana. O músico e Ministro da Cultura foi detido pelas autoridades da imigração dos EUA. Licenciado do Ministério e viajando em turnê musical, Gil foi interrogado em sala particular, no último dia 13, chegando ao aeroporto Fort Worth, em Dallas. O problema da imigração dos Estados Unidos com Gilberto Gil o acompanha desde que ele foi preso com maconha em Florianópolis, há 31 anos atrás, informou a assessoria do ministro/artista. O episódio foi registrado no documentário cinematográfico Os Doces Bárbaros de Jon Tob Azulay. E os camaradas da Esquerda Festiva, os atuantes jornalistas Fábio "Mutley" Bianchini e Marcos Espíndola, do Diário Catarinense, escreveram uma bela e extensa matéria relembrando o caso. Foi publicada na revista BIZZ no ano passado.

Dizem que Gal e Bethânia nunca mais fizeram shows na Capital Catarinense em represália. Mas no mês que vem a birra parece que vai acabar. Está sendo anunciada a inauguração de uma casa de shows com uma apresentação de Gal.

quarta-feira, 21 de março de 2007

Réquiem para um Soulman





No último dia 15 de março completaram-se 9 anos(!) da passagem de Sebastião Rodrigues Maia desta para melhor. Mais conhecido como Tim Maia, o emblemático soulman brasileiro está sendo biografado pelo jornalista Nélson Motta.

Pois visitando o blog do músico e escritor Henrique Bartsch, autor de Rita Lee Mora ao Lado, li um post em que ele publica um trecho da história do Tim, enviado pelo próprio Nélson. Saboreie. É um post grande mas vale a pena. No fim do arco-íris tem um pote de ouro.


Tim Maia Disco Club, 1978, 123 quilos

Em janeiro de 1978, Tim partiu para São Paulo para fazer uma apresentação no programa do Chacrinha, na TV Tupi. Para aproveitar as passagens e a hospedagem por uma noite no Hotel San Raphael, avisou à banda que ficariam mais dois dias em São Paulo, para gravar o disco no Estúdio Gazeta, “o melhor do Brasil “. Já estava tudo acertado, ele tinha telefonado do Rio marcando os horários, gravariam o disco todo de uma enfiada, em dois dias, todos juntos, como se fosse ao vivo, a banda estava preparada.

E assim foi, ou quase. Em dois dias, todos juntos no estúdio, com painéis separando os instrumentos para evitar vazamentos de som, gravaram as onze bases e algumas vozes de Tim, mas não deu para terminar tudo e mixar, como ele queria. O horário terminara, outros músicos esperavam ansiosos para entrar. E pior, Tim pagara o estúdio em dinheiro, antes de começar a gravar, estava zerado.

Réu confesso de ter faltado a diversos shows, muitas vezes Tim foi vítima de empresários e produtores trambiqueiros, que se aproveitavam de sua má fama para tentar explorá-lo. Para se proteger deles, criou uma senha de retirada, caso o contratante não aparecesse com 50% do levado em dinheiro vivo antes do show. Bastava gritar ou sussurar “estratégia“ que o pessoal nem tirava os instrumentos das caixas e começava a andar acelerado para o ônibus.

Assim que voltou ao hotel San Raphael, não deu outra:

Estratégia!

Aí, rapaziada, é o seguinte: embala tudo que a gente “vai fazer um show“, Tim deu a senha para a retirada.

Foi o que ele disse na recepção enquanto os músicos faziam uma confusão proposital na saída para esconder as sacolas de roupas misturadas com as caixas de instrumentos. Deixou a chave do carro alugado na recepção, pago com um cheque sem fundos, e partiu.

Como era tarde e precisavam dormir em São Paulo, Tim seguiu a sugestão de um motorista e foi com a banda em dois táxis para um muquifo numa zona distante e perigosa, mas a salvo dos cobradores do San Raphael. Sob protestos, os músicos passaram a noite amontoados em dois quartos do puteiro infecto.

De manhã, novo problema, alguns músicos ameaçaram se amotinar quando Tim disse que não voltaria para o Rio de avião e queria que pelo menos parte da banda o acompanhasse na viagem de volta no seu carro novo.

Que carro novo, Tim?

Na esquina do hotel, uma agência vagabunda de carros usados exibia um Ford Galaxy reluzente, em estado de novo, pouquíssimo rodado, de um único dono, a preço de promoção. Tim adorou o carro, era grande e confortável como ele gostava; o vendedor ficou encantado em conhecer o Tim Maia, ganhou uma capa de disco autografada e 50% do pagamento com a mesma assinatura em um cheque voador.

Na estrada desde as 10 da manhã, com Tim dirigindo a 60 km por hora, os músicos dormiam amassados no carrão, quando desabou um temporal e o Galaxy enguiçou numa serra nas proximidades de Resende. Entre conseguir uma carona, encontrar um mecânico e o carro voltar a rodar, passaram-se mais de cinco horas, só conseguiram chegar em casa às duas da manhã, com Tim praguejando contra a agência de automóveis que lhe “vendera“ uma bomba.

O rei do soul não considerava a discoteca música de branco, das cocotinhas da Zona Sul; para ele, ela não era oposta mas complementar ao soul negro da galera da Zona Norte, Tim se sentia muito à vontade ao lado de Kool and the Gang e do Chic:

Faço música de preto. E os pretos precisam se convencer que chegaram ao mundo dos brancos acidentalmente, em navios negreiros. Olha só isso que chamam de movimento Black Rio: os negros não passam de xerox dos americanos que, por sua vez, imitam aos brancos. Não sacam que o negócio é voltar para a África.

Gravado em 1978, o Tim Maia Disco Club seria um dos melhores discos de sua vida e marcaria sua entrada triunfal na onda da disco music e o início de sua colaboração com o tecladista e arranjador Lincoln Olivetti, um dos mais talentosos estilistas do Brasil, com quem faria muitas das melhores gravações de sua carreira.

A seleção carioca do soul entrou em campo com sua força máxima, com Paulinho Braga na bateria, Jamil Joanes no baixo, Robson Jorge no piano, Piau na guitarra, Chacal na percussão, Serginho Trombone, Paulinho Trumpete e (sax) no naipe de metais, sob a batuta, o Fender Rhodes e o Clavinet de Lincoln Olivetti.

No estúdio Level, em Botafogo, o guitarrista Renato Piau viveu momentos de grande emoção e suspense, durante a gravação da sua Pais e filhos, feita em parceria com Arnaud Rodrigues. Com a base gravada, Tim chamou o maestro argentino Miguel Cidras para escrever o arranjo de cordas, segundo as suas orientações. Quando o maestro abaixou a mão e os violinos tocaram, Tim não gostou do que ouviu, não era nada daquilo que esperava. Em certas partes as cordas faziam a mesma melodia que ele cantava, se confundiam com sua voz, quando deveriam ser em contra-canto.

Quando a gravação das cordas terminou, o produtor Guti Carvalho, pelo microfone da técnica, chamou o maestro para vir ouvir o resultado. Tim soltou os cachorros:

Pô, Guti, já te falei prá não chamar esse cara, mermão. Ele faz esses arranjos quatro-quatro-meia e assim não dá pra cantar.

Guti esquecera o microfone aberto e não só o maestro como toda a orquestra ouviram a esculhambação em alto volume. Miguel era um lourão corpulento, sanguíneo e cabeludo e, botando fogo pelas ventas, invadiu a técnica berrando em portunhol:

Hijo de uma puta! Yo te fuedo Tín Maia !

Não era para menos, quatro-quatro-meia, na língua de Tim, era o que nem chegava a cinco, era menos do que mais ou menos.

Miguel agarrou Tim numa gravata e derrubou como um touro de rodeio, enquanto Guti e Piau tentavam desapartar. O gringo estava furioso e Tim, de língua de fora, sufocava, esperneava e gritava tira esse cara daqui!

A muito custo o cara foi tirado dali e a gravação foi encerrada. Foram todos para uma salinha que André Midani havia cedido na casa da Warner, para ser o escritório de produção durante a gravação do disco. Um garrastazu oficial.

O clima estava pesado, mas foi logo aliviado com a visita do amigo Maurício do Valle, o querido Maurição, um grande ator baiano que se celebrizara como o Antonio das Mortes de Glauber Rocha e que também gostava de dar seus tirinhos fora da caatinga e das telas. Maurição foi recebido como um mensageiro da alegria, apresentou um gordo papelote de pó de primeira e a festa começou. Mais à vontade, Tim decidiu:

Ô Guti, esse Miguel é mesmo muito quatro-quatro-meia, mermão. Manda trazer o Lincoln Olivetti pra escrever essas cordas.

Com Lincoln vieram uma nova riqueza nos arranjos, um fraseado mais sofisticado de metais, o batidão disco se incorporava à levada do funk-samba-soul com naturalidade, a massa de cordas se desenvolvia em espirais vertiginosas, melhor e mais dançante do que aquilo, só o Earth, Wind and Fire. O disco abria com três clássicos, em seqüência, feitos para dançar. “A fim de voltar “ e “ Acenda o farol “, duas discos empolgantes, marcadas por cordas velozes e sinuosas, emendavam com o funkão pesado “ Sossego “, uma de suas obras-primas, com seu groove hipnótico e seus riffs de metais em brasa. A letra era uma síntese absoluta, um hai-kai carioca:

Ora bolas, não me amole,
com esse papo de emprego,
não tá vendo, não tô nessa,
o que eu quero é sossego !

Era só isso, e tudo isso. Não precisava mais nada, estava dado o recado. Não havia festinha, boate, bailão ou discoteca em que a pista não estourasse quando Tim pedia sossego ou dizia que estava a fim de voltar ou mandava, se o pneu furou, acender o farol.

Sossego foi uma das musicas mais tocadas do ano, um dos grandes sucessos da trilha sonora da novela "Pecado Rasgado" e do filme “Nos embalos de Ipanema“, de Antonio Calmon.

Tim estava estourado no Brasil inteiro, fazia um show atrás do outro sem faltar nenhum, mas os problemas não faltavam. No ginásio do Guarani, em Campinas, não foi nem o caso de estratégia. Foi muito pior.

Tim estava ansioso para fazer um show legal para o povão que lotaria o ginásio, cantar os seus sucessos e experimentar as novidades com a Vitória Régia. Eles eram a atração principal, entrariam por volta de meia-noite, depois de várias bandas locais. Onze horas o empresário os pegaria no hotel. Com o levado, naturalmente.

Uma da manhã e nada. Tim pronto, a banda inquieta, tensão no hotel. Às duas da madrugada finalmente o homem apareceu, transtornado. Alguma coisa dera muito errado, menos público que o esperado, roubo da bilheteria, calote de um patrocinador, o empresário tentou ser semi-correto e ofereceu pagar 50% do cachê a Tim - para não fazer o show. Tinha seus motivos, mas Tim insistiu, já que havia feito a viagem e estava esperando até aquela hora, louco para cantar, concordou em receber metade do levado - mas faria o show inteiro.

No ginásio, os ânimos estavam exaltados. Por volta de uma da manhã, como Tim Maia não aparecia, o público começou a vaiar e a gritar pelo dinheiro de volta, choveram garrafas, brigas estouraram, a polícia interveio várias vezes, mas os mais furiosos resistiam.

Quando Tim e a Vitória Régia chegaram, o chão estava coberto por cacos de vidro, o povo gritava furioso, o empresário implorou que ele não entrasse no palco. Tim mandou ligar o som e que a banda atacasse a introdução de “Não quero dinheiro“. Entrou sob uma gritaria infernal e, mal começou a cantar, uma garrafa jogada da arquibancada explodiu a seus pés. Outras se seguiram, sobre os músicos, os instrumentos e equipamentos, nem foi preciso gritar “estratégia“. Todos fugiram para o camarim aterrorizados, choviam garrafas sobre o palco, a turba gritava “quebra!“, “mata!“, “toca fogo!“

Enquanto os bombeiros tentavam esfriar a massa enfurecida com jatos de água, protegidos por um batalhão de choque da PM, Tim e os músicos embarcaram num camburão, o único meio seguro de levá-los vivos de volta ao hotel.

Foi a única vez que Tim ganhou para não fazer um show e ainda andou no banco da frente de um camburão.


Baixe Tim Maia Disco Club aqui.

O Príncipe



No fim dos anos 60 Ronnie Von gravou alguns discos psicodélicos que na época foram um fracasso comercial mas 30 anos depois despertaram o interesse daqueles que gostam de beber nas inesgotáveis águas da Música Brasileira. E eles estão espalhados pelo Brasil. Como mostra a jornalista e "ativista" cultural Flávia Durante que acaba de lançar um tributo à fase psicodélica de artista: 2 discos que estão disponíveis para download no site www.ronnievon.com. A homenagem reúne artistas do Pará ao Rio Grande do Sul.

Nos anos 60, o cantor tinha um programa de TV que rivalizava com o Jovem Guarda do "Rei" Roberto e ganhou da Hebe a alcunha de "Príncipe", o que obviamente nunca o agradou.
O hoje pacato "mãe de gravata" foi quem batizou um trio de adolescentes que tocavam no seu programa. Os moleques viraram Os Mutantes, aqueles mesmo, e chegaram a gravar algumas sessões dessa fase psicodélica do cantor.

No site Senhor F o músico Marcelo Birck da Graforréia Xilarmônica faz uma interessante análise faixa por faixa do quarto disco de Ronnie Von, de 1968, que pode ser baixado aqui.

Trash

Meus amigos e minhas amigas, dizia Décio Pignatari parafraseando o poeta Paul Valéry, que " sem um pouco de kitsch não poderíamos conviver". Concordo e pergunto se tu quer tomar uma boa dose desse licor? Pois se quiser delicie-se com a TV Orkut, que não tem nada a ver com o site de relacionamento do Google. A coisa nasceu da cabeça do baiano Petrucio Melo e está no ar há um ano. Lá você pode assistir programas como O Axé está no Ar, comandado por Pai Celso de Oxalá ou o Sem Preconceito, apresentado pela modelo Loren Lemos, que já atuou no programa Turma do Didi e na Praça é Nossa.

A gente já sabia





Está começando a cair a máscara da Ilha da Fantasia. O mito do paraíso idílico sofreu mais um duro golpe. Ontem à noite o Brasil todo pôde assistir, no Jornal da Globo, a matéria que a RBS exibiu no programa Estúdio Santa Catarina no último domingo. A repórter Kíria Meurer mostrou a escadaria de um prédio comercial no Centro, que durante a noite virou uma crackolândia. A cabeça da matéria foi:
Florianópolis sempre teve reputação, em todo Brasil, de cidade bonita, agradável, onde é bom de se viver. Até a chegada de uma droga que já trouxe muita violência a outras cidades: o crack.


Trabalhei e morei nessa região por um ano, de junho de 2001 a junho de 2002 e conheci algumas das pessoas que estão na matéria. Um flanelinha, que atuava na área, e uma mulher que vive nas ruas como pedinte. O enredo da história já é bem conhecido: o Centro da cidade é gradualmente abandonado por moradores e a degradação é inevitável. Florianópolis tem belas praias, cenários incríveis e muita gente boa mas é uma cidade brasileira como qualquer outra.

domingo, 18 de março de 2007

Alguma coisa acontece em Florianópolis




Ontem o Clube da Luta foi um sucesso. 15 dias sem chuva e subitamente as águas de março despencaram torrencialmente a noite inteira mas isso não impediu que a festa bombasse. Público de todas as tribos lotou o Café Fios & Formas. Gente bonita, figurinhas carimbadas, freaks, gente que é "people", gays, lésbicas e simpatizantes, músicos, atores, produtores, gente do lado de lá e do lado de cá da Ponte e muito mais. DJ Zé Pereira da Nação Balanço abriu o festerê conduzindo a vibe com maestria. A pista foi enchendo e o suíngue comendo solto. Quando começamos nosso show, a Coletivo Operante, o público já estava perfeitamente aquecido e dançou, se esbaldou, e nós também. Na sequência Andrey e a Baba do Dragão de Komodo carregaram no rock concretista, claramente influenciado pelo Arnaldo Antunes mas com muito mais senso de humor. Adorei a banda que ainda não tinha assistido. E a Samambaia Sound Club continuou a dança. Foi uma esbórnia dionisíaca pra ninguém botar defeito. Zé Pereira, sempre num timing impecável e dialogando com as bandas, encerrou a festa e tinha gente que queria mais.

Fotos e outras informações sobre a noite memorável no site Tô Puto.Hoje eu fico por aqui e deixo vocês com um rock psicodélico do Small Faces. Perfeito para essa lesêra dominical.