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sábado, 14 de novembro de 2009

Amor natural


A língua lambe

A língua lambe as pétalas vermelhas
da rosa pluriaberta; a língua lavra
certo oculto botão, e vai tecendo
lépidas variações de leves ritmos.

E lambe, lambilonga, lambilenta,
a licorina gruta cabeluda,
e, quanto mais lambente, mais ativa,
atinge o céu do céu, entre gemidos,
entre gritos, balidos e rugidos
de leões na floresta, enfurecidos.

Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 11 de agosto de 2009

On the road



Dica do @fabiobruggeman. O segundo documentário da série Encontros, em que ele e o escritor Salim Miguel viajam de carro de Florianópolis a Biguaçu, primeiro com Brüggemann no volante e depois numa viagem onírica em um carro antigo guiado por Salim Miguel.

Uma conversa afiada sobre a arte de escrever e um mergulho nas memórias e reminiscências de Salim Miguel, que recebeu no último dia 23 de julho o maior prêmio oferecido pela Academia Brasileira de Letras, o prêmio Machado de Assis (pelo conjunto da obra).

sábado, 25 de abril de 2009

O bife

QUANDO TUDO COMEÇOU

Estréia “Vestido de Noiva” (23/12/1943) por Nelson Rodrigues

No terceiro sinal alguém veio me soprar: “A melhor platéia do Brasil”. E começou a peça. Nove e meia, se bem me lembro. Numa pusilanimidade total, fiquei no fundo de um camarote, arriado. Platéia, balcões nobres, frisas e camarotes lotados. Eu não via, nem queria ver nada. Muitas vezes, tapava os ouvidos, doente de medo. E o pior foi o silêncio do público todo o primeiro ato. Ninguém ria, ninguém tossia. E havia qualquer coisa de apavorante naquela presença numerosa e muda.

Termina o primeiro ato. Três palmas, se tanto, ou quatro ou cinco no máximo. Gelado, imaginei que seriam palmas das minhas irmãs, dos meus irmãos. Continuei no fundo do camarote, cravado na cadeira. Repetia para mim mesmo: “Fracasso, fracasso!”

Termina o segundo ato. Menos palmas. Imagino: “Até minhas irmãs têm vergonha de me aplaudir”. Pongetti tinha razão. “Vestido de Noiva” era o caos. A platéia estava furiosa com o caos. Até que baixa o pano sobre o final do terceiro ato. Silêncio. Espero. Silêncio. Ninguém bate palmas, nem minhas irmãs.

Ainda silêncio. Atônito, pensei em Roberto Marinho que estava no camarote, ao lado. Devia estar me achando uma besta. E, de repente, começaram palmas escassas e esparsas. Um aplaudia aqui, outro ali, um terceiro mais adiante. Atracado à cadeira, sentia-me perdido, perdido. Mas via a progressão. Focos de palmas, em vários pontos da platéia. E, súbito, todos acordaram do seu espanto. Ergueu-se o uivo unânime.

Os aplausos subiam até a cúpula e multiplicavam as cintilações do lustre. Era como se o grande Caruso tivesse acabado de soltar um dó de peito. Os artistas iam e voltavam. Porteiros levavam corbeilles. Veio Ziembinski, arrastado, de mangas arregaçadas, com o suor de gênio da fronte alta. E, súbito, uma voz (possivelmente a de José César Borba) se esganiça: “O autor, o autor!” E não foi só o César Borba. Muitos outros, inclusive mulheres, pediam, exigiam: “O autor, o autor!”

Minha irmã Helena veio me buscar no fundo do camarote. Eu, que me esvaía em suor, gemi: “Não, não!” E ela: “Vem, vem!” Não podia explicar, ali, que eu entrara no Municipal um pobre-diabo; e ainda não me sentia o autor glorioso. Helena, porém, crispada de vontade, arrancou-me da cadeira. Lívido, apareci na varanda do camarote.

Pensei: “Roberto Marinho deve estar impressionado”. Esperava eu, e esperavam minhas irmãs, que a platéia se voltasse para mim e todos gritassem: “Ele, ele!” Mas o que em seguida aconteceu foi muito parecido com um pesadelo humorístico. Estava o autor, em pé, no camarote, pronto para receber a apoteose. E ninguém me olhava, ninguém. Era como se eu não existisse, simplesmente não existisse.

A platéia exigia o autor, mas virada para o palco, de costas para mim. Senti como se fosse um puro espírito, que vaga, invisível, inaudível, por entre os vivos. Deu-me a vontade furiosa de gritar: “Sou eu! Sou eu!” E nada. Por que os artistas do palco não apontavam: “Ali! Ali!” Por um minuto, sem fim, fui excluído da apoteose e me senti um marginal da própria glória. Recuei para o fundo do camarote, dilacerado de vergonha e frustração.

Quando saí do camarote, o primeiro a me abraçar, radiante, foi Roberto Marinho. Em seguida, Sílvio Piergile, o maestro. E ambos disseram: “Formidável!” Mas fora o Roberto Marinho e o Sílvio Piergile, ninguém via em mim o autor. Uma senhora ia na minha frente, com uma graça lânguida e nostálgica: “As mulheres só deviam amar meninos de 17 anos”. Vou descendo; no meio da escadaria, um velho me abraça; diz trêmulo: “Não perdi um enterro de sua família”. E me beija. Embaixo, sou envolvido, abraçado, quase raptado. Álvaro Lins me puxa pelo braço: “Vem cá que eu quero te apresentar o Paulo Bittencourt”. Lembro-me exatamente das palavras de Paulo: “Sua peça é extremamente interessante”. Alguém ciciou no meu ouvido: “Genial!” Isso, dito baixinho, como se fosse uma obscenidade, deu-me vontade de chorar.

Mas tinha que abraçar Ziembinski, o elenco. Fui para a caixa. Quando entrei, vi uma multidão. Ziembinski berrou: “O autor!” Recebi uma ovação espantosa. Ah, eu estava emocionalmente exausto, as pernas bambas, a vista embaçada. Abraço, longa e desesperadamente Ziembinski. Ah, o polaco (ninguém o chamava de polonês, mas de polaco), o polaco dera ao que parecia o caos uma ordem translúcida e perfeita. Depois de Ziembinski, saí abraçando os intérpretes um por um: Evangelina, Carlos Perry, Graça Mello, Expedito Pôrto, Carlos Mello, Isaac Paschoal. Do alto do camarote, eu era fisicamente desconhecido. Agora, não. Ziembinski me apresentara. Da caixa do teatro até a porta dos fundos, não dei um passo sem esbarrar, sem tropeçar numa admiração patética.

Finalmente, desvencilhei-me dos admiradores e cheguei à rua. Estou andando na calçada da Avenida, e atravesso a Almirante Barroso, vou na direção da Galeria Cruzeiro. Sentia-me boiar entre as coisas. A glória era recente demais. Uma hora antes, eu não passava de um pobre rapaz, que ganhava setecentos mil réis mensais (quinhentos na folha e duzentos por fora). E as coisas me pareciam de uma irrealidade atroz. Até a Avenida era irreal, e os edifícios, e as esquinas. Longe, na Praça Mauá, os mastros sonhavam.

No próprio edifício do Liceu de Artes e Ofícios, quase ao lado de “O Globo”, havia uma casa que era, a um só tempo, leiteria e restaurante. Lá serviam um prato chamado “Almoço Nevado”, típico da classe média. Era um bife, que podia ser acompanhado ou de batatas fritas ou de dois ovos estrelados, com arroz. E mais: manteiga, pão e um pudim de sobremesa. Tudo, ao preço compassivo, generoso, de doze mil réis. Entrei na leiteria deserta, sentei-me num canto. Disse, sem olhar o menu: “Traz um Almoço Nevada, com batatas fritas”.

Primeiro, o garçon trouxe pão e manteiga. Comecei a comer com sombrio elán. Tinha, na imaginação, o lustre do Municipal, ardendo em cintilações delirantes. O garçon voltou. Pôs o prato na mesa. Digo-lhe: “Traz mais pão, que eu pago por fora. Manteiga também, sim?” Eu continuava febril de sonho. Mas o prato estava diante de mim. O bife era a vida real.

domingo, 12 de outubro de 2008

Enlightenment



“O que é isso, Mamãe?” perguntou Jackie. “Você e o papai estão fumando um cigarro?”

“Não, querida,” disse sua mãe. “Isto é um baseado. É feito de maconha.”

“Maco-o-o quê?” perguntou Jackie, sonolenta.

“Maconha,” seu pai sorriu, “é uma planta.”

“Que tipo de planta?”

“Bem...” disse sua mãe, “que tal andarmos de bicicleta amanhã, e eu te conto tudo sobre essa planta. Combinado?”

“Combinado,” disse Jackie...


Trecho e ilustração do livro It's Just a Plant, " uma história para crianças sobre a maconha".

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Literárias

Minha amiga Jeanne Callegari volta à Floripa hoje para lançar o livro Caio Fernando Abreu - Inventário de um escritor irremediável, um perfil produzido em tom de reportagem, que reconstitui a vida do autor desde a infância, em Santiago do Boqueirão, até a morte por aids, anunciada em crônica de jornal.

Caio Fernando Abreu é um fenômeno raro na literatura brasileira, sendo ao mesmo tempo cultuado pelos leitores e um dos autores mais estudados pela Academia.

O lançamento acontece logo mais às 19h na Livros & Livros , na Rua Jerônimo Coelho, Centro de Florianópolis.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

"O Caso da Governanta"



Posso contar uma vitória? Não é que seja exatamente uma vitória, mas é uma grande forra. Sabe? Vingança é uma palavra forte para definir. Acho que forra é o que é. Não uma forra minha, particular. Uma forra que eu tomei em
nome de todos os artistas do país.

Vamos lá.

Quando o Sr. Victor Costa, diretor geral da Rádio Nacional, comprou a Rádio
Mayrink Veiga, nós da Mayrink passamos a ser escalados para shows em casas
de pessoas ricas, gente a quem o Sr. Victor devia favores ou desejava
obtê-los. O fato é que a gente chegava na tabela e estava lá:

- Fulano, Fulano, Francisco Anysio, Fulano, Altamiro Carrilho,
Jorge Veiga, Dolores Duran, Antonio Carlos – show na casa do Dr.
Não-Sei-O-Quê de tal, na rua Tal número tanto. 20 horas.

E a gente ia e fazia um show para o qual ninguém dava a menor
bola. Mas nem olhavam. Aquele show era uma coisa chata, que só servia para
atrapalhar a conversa deles. Mas fazer o show era uma ordem do patrão, e o
jeito qual era? Obedecer.

Pois bem.

Uma tarde estava na tabela o meu nome para um show numa casa da Lagoa
Rodrigo de Freitas. A gente lia o nome ali, escalado para esse serviço e
dava um frio que corria pela espinha. Era pedra!

Eu lembro do elenco escalado para aquele show: Jorge Veiga, Dolores Duran,
Aracy Costa, eu e (deixei de propósito para citar no final), o Antonio
Carlos – o pai da Glorinha Pires e maior comediante que eu conheci em toda a
minha vida.

Um locutor apresentava o show. E os cantores seriam acompanhados, como
sempre, pelo regional do Altamiro Carrilho.

Era pra chegar às oito horas, 15 para as 8 eu toquei a campainha,
abriu a porta uma governanta. Loura, já de uma certa idade, muito elegante,
um vestido cinza até os tornozelos, parecendo mais uma governanta de filme
inglês. Chiquérrima.

- Pois não.

- Eu sou artista do show.

- Ah, artista? Ali pela porta de serviço, por favor.

Eu fui lá e ela me ofereceu uma cadeira na copa. Daí a pouco
chegou a Dolores, chegou o Jorge, o Tuneca, o Altamiro com o regional dele.
Nós, os artistas, ficamos todos ali na copa.

A cozinheira serviu pra gente uns bolinhos de bacalhau e cerveja.
Ai veio a hora fatal: a hora do show. Nós fizemos aquela infelicidade que
era habitual, e fomos embora.

Quatorze anos depois, eu estava no Teatro da Lagoa com um show arrebentando
a boca do balão, um record que não tem como ser batido, porque eram oito
sessões por semana – (2ª, 3ª, 4ª, 5ª, 6ª, duas no sábado e duas no domingo),
eu fiz 15 meses, com uma média de público de 23 pessoas acima da lotação, ou
seja: todas as casas superlotadas.

Pois bom.

Numa noite lá o Ricardo Amaral que até hoje não sei se é um amigo irmão ou
um irmão amigo, me disse:

- Olha aqui, Chico Anysio: você não me marque nada para depois do
espetáculo, porque o Fulano de Tal viu o show, adorou, e fez um jantar em
sua homenagem. Olha aqui o endereço.

E botou um papel no meu bolso.

- Ta legal.

- Eu não vou poder ir, porque já tinha um compromisso, ele sabe disso, mas
me falou que ele mesmo vai tomar conta de você.

- OK, Amaral. Eu vou lá.

Depois do show eu peguei o papel, vi o endereço e fui pra lá, para o tal
jantar em minha homenagem.

Quando eu desci do carro e olhei...

Era aquela mesma casa de quatorze anos atrás. A mesma. Olha só.
Quatorze anos depois eu estava ali, de volta.

Eu então o que fiz? Tranqüila e modestamente, fui à porta de serviço e
toquei a campainha.

Abriu a porta a mesma governanta, com a mesma roupa cinzenta...

- Chico Anysio. O que é isso? Aqui é a entrada de serviço. A porta
da frente é ali.

Eu disse:

- Eu sei. É que há quatorze anos atrás eu vim aqui fazer um show a
mando do Sr. Victor Costa, toquei a campainha lá e a senhora mesma me disse
que artista entrava pela porta de serviço. Como eu continuo artista vou
entrar por aqui. Com licença.

Entrei e fiquei na cozinha. Nem à copa eu fui. Fiquei brincando
com a cozinheira, tirando tampa de panela, dando uma provadinha numa coisa e
noutra e as pessoas foram vindo, me chamando pra sala e eu não indo e
mexendo nas panelas e a festa passou para a copa e cozinha.

Minha mãe me dizia que isto foi uma indelicadeza minha, mas será
que foi?

Pra mim foi uma forra, porque eu já estava de saco cheio de ser discriminado
somente por ser artista.

Julguem vocês.




Chico Anysio
em seu blog.

sábado, 9 de fevereiro de 2008

Filho de peixe


Minha garota leu, me recomendou e eu repasso pois gostei bastante. O livro Banalogias de Francisco Bosco. São ensaios bem humorados sobre o Brasil, a morte, tatuagem, Michael Jackson, futebol,o cotidiano, Casa Grande & Senzala, música e tudo isso num texto nada hermético.

O autor é ensaísta e letrista,editor da revista Cultura Brasileira Contemporânea publicada pela Biblioteca Nacional, doutorando em Teoria Literária pela UFRJ e colunista da revista Cult. E filho de um dos maiores músicos do Brasil, João Bosco.

sábado, 24 de novembro de 2007

Tim Maia é o cara



A recém-lançada biografia de Tim Maia, escrita por Nelson Motta, chegou às livrarias. Intitulada Vale Tudo - O som e a Fúria de Tim Maia a história do gordoidão merecia mesmo ser contada e ninguém melhor do que o jornalista e agitador cultural, amigo pessoal do mestre do soul-funk brasileiro.

E o lançamento conta com um hotsite bem legal onde dá para ouvir dezenas de músicas do Tim, ver várias fotos e de lambuja ler alguns capítulos do livro. Chega lá.