
E sexta tem novo combate na Célula Cultural Mané Paulo. Bora lá que a sonzera vai rolar solta.



O Buda descreveu o que chamamos de "eu" como um conjunto de elementos agregados de mente e corpo, que funcionam de maneira interdependente, criando a aparência de mulher ou homem. Nós, então, nos identificamos com essa imagem ou aparência, fazendo dela "eu" ou "meu", imaginando que ela tem alguma auto-existência inerente.
Por exemplo, acordamos de manhã, olhamos no espelho, reconhecemos um reflexo e pensamos "OK, sou eu de novo". Então, adicionamos todo tipo de conceito a essa sensação de "eu": sou mulher ou homem, tenho tantos anos, sou uma pessoa feliz ou infeliz, e a lista continua.
Quando examinamos nossa vivência, contudo, vemos que não há nenhum ser central a quem ela se refere. Em vez disso, são simplesmente fenômenos vazios se desenrolando. Vazios no sentido de que não há ninguém particular por trás dos fenômenos surgindo e mudando.
Um arco-íris é um bom exemplo disso. Vamos para fora após uma tempestade e sentimos aquele momento de deleite quando surge um arco-íris no céu. Na maioria das vezes, simplesmente curtimos a visão sem investigar a natureza do que está acontecendo. Mas quando olhamos mais profundamente, se torna claro que não há nenhuma coisa chamada "arco-íris", separada das condições particulares do ar, umidade e luz.
Cada um de nós é como esse arco-íris: uma aparência, uma aparição mágica, surgindo de nossos vários elementos de mente e corpo.
Joseph Goldstein
Hoje à tarde encontrei esta bela residência em um dos poucos terrenos livres aqui no Kobrasol. Enquanto prédios altos nascem da noite para o dia, este cavalheiro parece ter resolvido seu problema de moradia com uma solução simples e ecológica. Eu havia passado pelo local um pouco mais cedo e fiquei encantado pela arquitetura da edificação. Cheguei a pensar que era uma obra de arte, uma instalação dessas milionárias que costumamos ver nas bienais. Voltei lá hoje à tarde e falei com o proprietário, o cavalheiro de costas, que preferiu não mostrar seu rosto na foto. Pedi a ele para documentar sua obra e ele permitiu sem contestar. Ainda me deu a honra de uma rápida entrevista:
Bruxismo: Ótima a sua casa, hein?
Proprietário: Sim, sim.
B: É inacreditável a quantidade de materiais de qualidade que as pessoas jogam fora. E não chove dentro dela?
P: Não. Coloquei plástico em cima.
B: Ninguém te incomodou aqui até agora?
P: Não.
Minha última pergunta dizia respeito aos curiosos, como eu, que irremediavelmente iriam incomodá-lo em relação à arquitetura de sua obra, nada mais. Afinal o terreno estava livre, sem uso e já entulhado com a matéria-prima que ele utilizou. Nada mais justo do que montar seu belo mosaico. Nem todo mundo está preparado para soluções tão imediatas assim e provavelmente ele deve estar se esquivando dos impostos e outras prisões do sistema. Mas ele não deve dar muita importância para essas coisas, como percebi em sua resposta para a última pergunta.











“Nascimento, mudanças e apogeu da Pilantragem”
O negócio aconteceu assim: Simonal me pediu para inventar uma nova jogada. Sugeri então em transformar o samba em compasso quaternário, pois assim o cantor ficaria mais à vontade para se mostrar. Bolamos o estilo e eu compus então a primeira música de Pilantragem: “Mamãe passou açúcar ni mim”. Peruzzi foi chamado e bolamos que, como o Iê-Iê-Iê estava na onda, o negócio tinha que ser com guitarras. Criamos então o Samba-Jovem e nós definíamos: “Batida de samba e môlho de Iê-Iê-Iê”. Aí entrou Cesar Camargo Mariano na jogada com o seu Som 3 e começou a bolar novos arranjos. Nonato Buzar, amigo antigo e compositor de música tradicional, juntou-se a mim para fazermos músicas juntos. Fizemos “Carango”, que Buzar achava horrível e deprimente. Um dia propôs-me: “Se você acha que a música é realmente sensacional e que vai dar muita grana, me dá 100 contos agora que ela fica sendo só sua”. Foi um custo para convence-lo de que o samba-jovem ia dar pé. Quando “Carango” estourou e Buzar recebeu uma grana violenta como meu parceiro, foi correndo para casa e jogou fora tôdas as músicas sertanejas e dias depois veio a safra de “Uni-du-ni-tê”, “Vesti azul”, etc.
Eu, Simonal e Cesar Mariano trabalhávamos juntos na TV Record e a palavra que mais usávamos era Pilantragem. Tudo era Pilantragem e resolvemos oficializar a mudança do Samba-Jovem para Pilantragem. Eu compus então, “Nem vem que não tem”, cuja letra define bem o sentido da Pilantragem. Cesar Mariano fêz os arranjos (Toninho na Bateria e Sabá de Baixo para dar o môlho) e Simonal gravou como se estivesse tomando banho: completamente à vontade. No início da música, Simonal, com aquela voz de Pila (falar com os lábios fazendo bico) disse: “Vamos voltar à Pilantragem”. Estava definitivamente lançada a Pilantragem como música, arranjo e filosofia (veja letra de “Nem vem que não tem”).
Pilantragem é a apoteose da irresponsabilidade consciente.
*Texto retirado da contracapa do disco “Pilantrália”



"Santa Catarina já teve o maior prêmio cultural do Brasil, o concurso de literatura Cruz e Sousa, criado no governo de Jorge Bornhausen e reeditado na administração de Esperidião Amin. A repercussão nacional foi extraordinária, tanto na primeira, quanto na segunda fase. Hoje, o maior prêmio do gênero no País é o de Minas Gerais, que distribuirá mais de R$ 200 mil para os vencedores (a maior parte do prêmio para escritores mineiros).
Qual a relevância cultural de Santa Catarina no plano nacional hoje?
Nenhuma.
Não há qualquer evento que se destaque. Simplesmente porque o atual governo não tem uma política cultural. Apóia iniciativas isoladas, que não contribuem para a projeção nacional do Estado".


"A cena musical como a vejo hoje é pouco diferente de quando eu estava crescendo. Os percentuais são aproximadamente os mesmos: 95% de lixo e 5% puro. Contudo, os sistemas de marketing e distribuição estão no meio de uma enorme guinada, e por volta do final desta década creio ser improvável que qualquer uma das gravadoras ainda esteja no negócio. Com todo o respeito a todos os envolvidos, isto não seria grande perda. A música sempre vai achar um caminho até nós, com ou sem negócios, política, religião ou qualquer outra baboseira ligada a ela. A música sobrevive a tudo e, como Deus, está sempre presente. Não precisa de ajuda, e não é obstruída. Ela sempre me encontrou e, com a benção e permissão de Deus, sempre haverá de encontrar".




O crepúsculo nem tão festivo da esquerda
Parecia uma boa idéia. Realizar a palestra com o histórico intelectual de esquerda em um bar, habitat natural das conspirações festivas que ele integrara. A euforia causada pelo álcool imprimiria um tom descontraído à conversa e, com sorte, estimularia o convidado ilustre a revelar inconfidências que não poupariam nem seus antigos sócios no monopólio da resistência. Jornalistas de ontem, hoje e amanhã lotariam as dependências para ouvir daquele senhor um relato impressionante sobre o período verde-oliva do Brasil, enquanto bebericavam algo e conferiam as silhuetas das jovens que flanavam pelo local. No mínimo, seria mais divertido do que ler os livros de Elio Gaspari. Correu tudo conforme o combinado. Ou seja, deu tudo errado.
Ultrapassando as expectativas etílicas a seu respeito, o histórico intelectual já chegou de porre. Havia passado a tarde inteira e o começo da noite em um boteco regando o verbo e alimentando sua lenda pessoal. Às 11, hora marcada para o compromisso, sua dicção estava mais embaralhada do que seu raciocínio. Até aí, nada que empanasse o folclore. A disputa pela atenção enfrentaria obstáculos mais graves: a abundância de espécimes felinas mais interessantes que o palestrante e o retorno ao Brasil de um colega que ficou 14 meses viajando pela parte do planeta que a administração Bush pretende transformar em uma gigantesca quadra de basquete. De repente, escutar as últimas de Cabul com um olho na estagiária ao lado seria mais útil à profissão do que descobrir métodos para driblar a Censura.
Contra o lendário subversivo, o colega tinha a seu favor todo o mistério do Islã e a cumplicidade de seus velhos conhecidos. Para arrematar, não se entendia nem escutava nada do que o tiozinho tentava falar, salvo o movimento de perdigotos em direção ao microfone. Não demorou muito para se perceber de onde viriam as revelações surpreendentes. O colega contava seu relacionamento com o Taleban (“é um movimento gay”), a difícil sobrevivência em um ambiente de guerrilha (“pelo menos, o cigarro é barato”) e o rigor das muçulmanas (“não interagi com nenhuma”). À guisa de lembrança, sacou uma burca, medalhas alusivas à ocupação soviética, uma bandeira vermelha com o perfil de Lênin e um item que imediatamente se tornou objeto de culto e adoração: uma nota de 250 dinares com a efígie de Saddam Hussein, contrabandeada por soldados americanos.
Era novidade demais diante dos lugares comuns que o convidado tinha para expor. Inconscientemente ou não, ele reconheceu a batalha pelos holofotes como perdida e levantou-se, acometido por um ímpeto urinário. Acompanhado por um chargista (seu fã), dirigiu-se ao único banheiro do local. Ocupado. O chargista bateu na porta alertando para a emergência da situação, sem resposta. Então o intelectual declarou com a língua enrolada: “Não vai mais ter palestra nenhuma”. E baixou o olhar. A mancha escura em sua calça cáqui reproduzia o mapa do Chile, um filete que ia da virilha até a canela. O chargista ainda alegou que, se derrubasse cerveja em sua roupa, ninguém ia notar nada. Mas o clima - ou a atmosfera - já estava irremediavelmente comprometido. O sonho acabara.
Quase ninguém acusou a retirada do intelectual. Humilhado, o veterano de grandes causas perdidas, exemplo de valentia na sala de tortura e ícone da luta pela liberdade, voltou para o hotel sozinho, tendo de convencer um taxista a levá-lo naquele estado. Na saída, ainda foi interpelado por outro admirador: “Oi, sempre me inspirei em seu trabalho e...” “Pô, vocês aqui são foda!”, interrompeu o prócer da imprensa combativa antes de evaporar. Lá dentro, na mesa do fundo, o colega continuava com o ibope alto devido à milonga afegã, sem se importar com o destino de sua cédula de dinar. No banheiro, alheios ao drama nefrológico do intelectual, dois amigos do viajante faziam o que nem todo o poderio militar do Pentágono conseguiu: deixar o ditador iraquiano de cabelos brancos.